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  • Robson Valdez

A liderança internacional dos Estados Unidos em tempos de pandemia global


Photo by Charles Deluvio on Unsplash

Em tempos de pandemia, o que se esperava dos Estados Unidos em seu papel tradicional de líder global era que o país se antecipasse a essa crise para enfrentar todas as suas dimensões no front doméstico para, em seguida, coordenar a coalização de esforços internacionais no enfrentamento aos desafios impostos pelo rápido contágio do novo coranvírus. Nesse sentido, essa posição de líder global dos Estados Unidos que o país busca ostentar pode estar sofrendo o primeiro grande teste desde o início do colapso do bloco soviético no final da década de 1980. Ainda que vários indícios apontem para uma condução inadequada do governo chinês no que diz respeito ao surto inicial do novo coronavírus em seu território, o que se percebe é que após o controle da doença no país, Pequim tem agido rápido em projetar seu softpower àqueles países que também sofrem com o surto da doença. Tarefa que, em tempos de crises global, sempre tocou aos norte-americanos.


Ninguém duvida de que os Estados Unidos não tenham recursos financeiros para fazer frente a essa nova crise global. Contudo, fica evidente que administração Trump não conseguiu dimensionar o tamanho do problema e agora pode não conseguir agir a tempo de evitar maiores danos em termos econômicos e de vidas humanas. Especialmente em um ano eleitoral.


Os norte-americanos têm um desafio enorme a sua frente. As estimativas revelam que o país possui somente 1% do total das 3.5 bilhões de máscaras necessárias[1]. Quanto aos respiradores, um estudo do governo americano de 2005 previu que se o país fosse atingido por uma pandemia como a gripe espanhola de 1918, o governo americano necessitaria de 740 mil respiradores. Atualmente o país conta com 160 mil ventiladores e um estoque emergencial de 8 mil deles[2]. Nesse sentido, ao perceber a gravidade da situação, o governo norte-americano pretende lançar mão da estatização de empresas privadas como a General Motors para a produção imediata de respiradores[3].


Se levarmos em consideração os leitos hospitalares, os americanos contam com 2,8 camas para cada mil habitantes. Ao compararmos esta variável com outros países temos: 12 para cada mil habitantes na Coreia do Sul; 4,3 para cada mil habitantes na China e 3,2 para cada mil habitantes na Itália[4].


No que tange ao acesso dos cidadãos norte-americanos aos medicamentos de forma geral, é sabido que a indústria farmacêutica dos Estados Unidos depende maciçamente de importações da China e da Índia. De acordo com o FDA, a dependência de importações de componentes básicos desse setor é de 80% de importações da China e da Índia. Adicionalmente, a China é o segundo maior exportador de fármacos e o maior exportador de aparelhos médicos para os Estados Unidos[5]. Nesse ponto, vale a pena ressaltar, a título de pura especulação, complexidade e a dinâmica das relações internacionais.

Nas últimas duas semanas, o governo Trump e o próprio Presidente dos Estados Unidos fizeram várias afirmações imputando responsabilidade ao governo chinês pelo o surto inicial do novo coronavírus na província de Hubei, com o intuito de criar uma publicidade negativa para Pequim. Contudo, apesar de contestar a atitude do governo americano, a China vem preterindo pedidos de importação de equipamentos para o enfrentamento dessa pandemia no Brasil, para atender a massiva importação dos mesmos equipamentos que serão comprados pelos Estados Unidos[6]. É evidente que o volume dessas compras e o simbolismo da intrincada dependência comercial nas relações China-Estados Unidos, tem um peso muito maior do que as bravatas desastrosas do filho do mandatário brasileiro direcionadas ao embaixador chinês no Brasil por meio de suas redes sociais. Em todo caso, vale ressaltar que a diplomacia também é feita de simbolismos e simbolismos transmitem mensagens. Resta ao Planalto interpretar as várias mensagens que essa crise internacional está transmitindo.

Mesmo assim, apesar de todos esses desafios logísticos em minimizar os impactos devastadores do coronavírus nos Estados Unidos, no âmbito internacional, o país segue desgastando-se na guerra de narrativas sobre a origem e as responsabilidades dessa crise com o governo chinês. Adicionalmente, mostra-se insensível ao drama de populações no Irã e na Venezuela que têm dificuldades em conseguir ajuda internacional por conta das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. Assim, cansada de esperar por uma “autorização” norte-americana, a União Europeia prometeu uma ajuda de 20 milhões de euros em ajuda humanitária para esses dois países e pediu que a comunidade internacional siga seu exemplo[7].


Por outro lado, enquanto o governo americano busca orientar-se em meio a maior crise global desse século, a China ocupa o espaço de ação deixado pelos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que França a e Alemanha impuseram limites às suas exportações de material médico-hospitalar, o governo chinês se prontificou a vender 1000 respiradores artificiais, 2 milhões de máscaras, 20 mil vestes protetoras e 50 mil kits de testes para detectar o novo coronavírus.[8] Para o Irã, o governo chinês enviou 250 mil máscaras[9]. Em encontro com o mandatário sérvio, Xi Jinping garantiu que a China irá fornecer especialistas para ajudar controlar a epidemia, material protetivo, instrumentos médicos e irá facilitar a compra de suprimentos chineses[10]. Somente para o continente africano, além da ajuda do governo chinês, o cofundador da Alibaba, Jack Ma, está providenciando a doação de 20 mil kits de testes para a doença, 100 mil máscaras, e mil vestes protetivas para cada um dos 54 países africanos[11]


O governo Trump colhe, agora, as consequências de sua política externa isolacionista, baseada, dentre outras coisas, em sua abordagem negacionista em relação a vários temas da agenda internacional, principalmente no que diz respeito a sua visão da ciência como um ator antagônico à expansão do capitalismo global. Agora, contrariado, Trump abandona o ceticismo científico e a ortodoxia economia liberal e lança mão de medidas heterodoxas para minimizar os efeitos do desastre social dessa pandemia mundial sobre a economia norte-americana e sobre a corrida presidencial, logo mais, em novembro. Enquanto isso, no extremo oriente, o governo chinês, segue com seu objetivo de preencher os vazios estratégicos deixados para trás pela atual desorientação dos Estados Unidos.

[1] Ver The Global Mask Shortage May Get Much Worse. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-10/the-global-mask-shortage-may-be-about-to-get-much-worse. Acessado em 01/04/2020.

[2] Ver This is the coronavirus math that has experts so worried: Running out of ventilators, hospital beds. https://www.washingtonpost.com/health/2020/03/13/coronavirus-numbers-we-really-should-be-worried-about/. Acessado em 01/04/2020.

[3] Ver Trump orders GM to manufacture ventilators under the Defense Production Act. https://www.washingtonpost.com/politics/trump-raises-prospect-of-ordering-gm-ford-to-manufacture-ventilators/2020/03/27/92f82db6-7043-11ea-aa80-c2470c6b2034_story.html. Acessado em 01/04/2020.

[4] Ver This is the coronavirus math that has experts so worried: Running out of ventilators, hospital beds. https://www.washingtonpost.com/health/2020/03/13/coronavirus-numbers-we-really-should-be-worried-about/. Acessado em 01/04/2020.

[5] Ver The Coronavirus Outbreak Could Disrupt the U.S. Drug Supply. https://www.cfr.org/in-brief/coronavirus-disrupt-us-drug-supply-shortages-fda. Acessado em 01/04/2020.

[6] Ver Compra em massa dos EUA à China cancela contratos de importação de equipamentos médicos no Brasil, diz Mandetta. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus-servico/compra-em-massa-dos-eua-china-cancela-contratos-de-importacao-de-equipamentos-medicos-no-brasil-diz-mandetta-24344790 Acessado em 01/04/2020.

[7] Ver EU to send €20 million in aid to Iran, Venezuela amid COVID-19 pandemic. https://www.presstv.com/Detail/2020/03/23/621469/www.presstv.tv. Acessado em 01/04/2020.

[8] Ver Italy criticises EU for being slow to help over coronavirus epidemic. https://www.theguardian.com/world/2020/mar/11/italy-criticises-eu-being-slow-help-coronavirus-epidemic Acessado em 01/04/2020.

[9] Ver Envoy: China delivers 250,000 face-masks to Iran. https://en.irna.ir/news/83691089/Envoy-China-delivers-250-000-face-masks-to-Iran Acessado em 01/04/2020.

[10] Ver Xi says China to send medical experts to help Serbia fight COVID-19. http://www.xinhuanet.com/english/2020-03/21/c_138902875.htm Acessado em 01/04/2020.

[11] Ver China makes massive donation of medical supplies to fight coronavirus in Africa. http://www.rfi.fr/en/international/20200323-china-africa-coronavirus-alibaba-health-medical-equipment. Acessado em 01/04/2020.


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